Cine-Teatro Louletano

A Tempestade, de Shakespeare, pela Companhia João Garcia Miguel

02 de junho de 2018

A Tempestade, de William Shakespeare, um texto clássico, é o mote para o diálogo e investigação, iniciados em 2017, que abre um ciclo sobre o amor. Importam-me os corpos que fundem as palavras. Por isso esta será a metáfora, em forma de texto, para a criação de um espetáculo onde de novo se avalia o que de enigmático e misterioso se preserva num clássico. Que força é essa que o anima e faz sobreviver ao tempo e às tempestades humanas e naturais?

 

É no confronto entre a performance e o texto que se erguerá a obra. Esta será uma obra performativa que relê o texto clássico num ato de perversão dramatúrgica e, através das experiências subjetivas dos corpos, vai em busca da sua forma. A Tempestade é uma história de vingança e uma história de amor. Contém muitas histórias dentro de si. É uma história de conspirações oportunistas que contrapõe a figura disforme e selvagem dos instintos animais, que habita o homem, à figura etérea, incorpórea das altas aspirações humanas. Contrapõe o baixo com o alto, a terra contra o céu. Contrasta os instintos aos desejos de liberdade. A investigação dessas emoções, desses pensamentos e das suas expressões físicas, são, desde logo, a matéria restante do nosso fazer artístico.

 

Este espetáculo dá início a um ciclo dedicado às emoções, ao amor, mas também ao ódio que se lhe opõe, às forças que nos assolam como tempestades e nos sustentam os caminhos. As tempestades ilustram, exteriormente, no mundo real, as forças da natureza, assim como as forças interiores. Energias que se chocam invisíveis, das quais os movimentos dos corpos são feitos afinal. Na força à solta, na tempestade, entrevêem-se os movimentos nervosos do corpo. É aí, nesses movimentos subtis e disruptivos, que este espetáculo se irá fundar. Nas forças opostas em confronto, nas zonas de contacto, entre a vida e a morte, na carne que se move por dentro do sonho inconsciente. São essas forças fundidas que emergem do nervo à carne, daí para a pele, e que a pouco e pouco se espalham pelo mundo que vamos em busca de interrogar. Cada um destes mundos é como uma ilha pessoal. Para chegar ao outro temos de naufragar e ser aniquilados pelo mar do ser desfeito.

 

Ao quebrar-se esta metáfora emocional da tempestade, perde-se a sua condição destruidora e ganha-se em subtilezas. Ali, na mudança de qualidade, a tempestade encerra uma renovação. O inconsciente torna-se material visível, emerge e transforma os corpos em unidades vivas: espaço e sujeito. A tempestade causa estragos na ordem existente e traz destroços às margens do conhecido, náufragos, memórias devastadas, amnésias como restos de navios tornam-se visíveis, pedaços do fundo do mar falam-nos, a matéria informe e irreconhecível traz sensações físicas renovadas de mistérios esquecidos. O reconstruir de uma certa ordem posterior é já um trabalho que reinventa o corpo, que tira das forças da tempestade o seu saber e o incorpora numa realidade transformada. É este desafio que propomos ao espetador que já conhece Shakespeare e o nosso trabalho. Uma reinvenção do nosso tempo comum.”

 

João Garcia Miguel

 

Textos: João Garcia Miguel a partir de William Shakespeare / Direção e encenação: João Garcia Miguel / Interpretação: António Pedro Lima, David Pereira Bastos, Sara Ribeiro, Vítor Alves Silva / Música: Nuno Rebelo / Assistência de encenação: Rita Costa / Apoio cenográfico e adereços: Rita Prata / Figurinos: Tiago Vieira / Desenho de luz: Luís Bombico / Direção de luz: Contrapeso / Operação de som: André Carinha / Produção executiva e Gestão de projetos: Tiago da Câmara Pereira / Consultoria de imagem e comunicação: Alcina Monteiro / Imagem gráfica: João Catarino / Estagiárias Colégio Gil Vicente: Jenissa Meggi e Sara Gonçalves

 

A Companhia João Garcia Miguel é uma estrutura financiada por: Governo de Portugal, Ministério da Cultura, Direção Geral das Artes, Câmara Municipal de Lisboa e IEFP

 

Duração: 85 minutos

Co-produção: Teatro Aveirense, Cine-Teatro Louletano, Teatro-Cine de Torres Vedras, Teatro Ibérico, Junta de Freguesia do Beato e Casa Pia de Lisboa / Apoio: Centro Cultural Vila Flor, A Oficina, Tribo da Terra, Primeiro Acto, Companhia Olga Roriz e Atelier Re.Al

 

www.facebook.com/cineteatrolouletano

  • Sala de espetáculos
  • 21:30
  • 10 € / 8 € para maiores de 65 e menores de 30 anos (Cartão de Amigo aplicável)
  • M/12