Cine-Teatro Louletano

João Frade | Conversas à Quinta

30 de janeiro de 2020

João Frade feat. Michael Olivera e Yarel Hernandez
Apresentação do novo disco homónimo João Frade

 

[local: Auditório do Solar da Música Nova, em Loulé]


João Frade, acordeonista algarvio e um dos nomes maiores do panorama musical português, participa na primeira sessão de 2020 desta rubrica regular e, num misto entre tertúlia e concerto, vem apresentar o seu novo disco homónimo “João Frade”, editado em 2019 e aqui acompanhado por Michael Olivera (bateria) e Yarel Hernandez (baixo). Este serão é igualmente uma viagem pelo eclético percurso profissional de Frade e pelas suas visões sobre o universo cultural, bem como pelos seus atuais e futuros projetos na área musical.

«A jazzar no étnico com os ouvidos abertos ao mundo

O novo disco, homónimo, de João Frade reafirma e reforça, com vincada maturidade, tendências estéticas já enraizadas na identidade e percurso do inspirado(r) músico algarvio e, por outro lado, pisca o olho a alguns novos caminhos sonoros no sentido da adopção de uma linguagem ainda mais ecléctica e cosmopolita.

Se a matriz etno jazz é incontornável neste álbum (que conta com a preciosa assinatura de Munir Hossn na produção executiva), a aproximação a um universo mais pop e a registos e esquemas minimalistas e repetitivos está igualmente presente nesta viagem exploratória por diversos imaginários e cores musicais em busca como que de uma “pureza melódica”.

Temas como “Bihaya”, “Casei com uma velha” (uma versão a partir do intérprete madeirense Max), “Enrolão” ou “Cielito lindo” (canção-ícone folclórica mexicana da autoria de Quirino Mendoza y Cortés, escrita em 1882) ilustram essa (re)ligação essencial do intérprete às raízes, à identidade sonora da terra, sempre numa óptica de desconstrução e reinvenção musicais como é apanágio de João Frade.

A aludida faixa inicial do disco, “Bihaya”, é, aliás, ilustrativa da filiação do músico numa plêiade de intérpretes que a partir dos anos 90, por via do incremento da globalização, deram um novo fôlego criativo à música folk, entre os quais se contam, pela proximidade sonora, o basco Kepa Junkera – só para citar um exemplo ligado aos instrumentos (aerofones) de fole. “Enrolão”, expressão tradicional presente na oralidade algarvia, é esse corridinho “mentiroso” (e sedutor) que rompe com a sua génese, pontuado pelas progressões de um piano “líquido” que inclusive tem honras de co-solista neste tema central. Já a canção mexicana – última faixa do álbum – surpreende pela sua improvável abertura (até ao 1:15 quando então surge discretamente o plangente refrão) assente numa releitura minimalista e contemplativa que aquieta claramente o ritmo das versões mais conhecidas conferindo-lhe outra ambiência e profundidade musicais – numa espécie de lúcido apaziguamento das tonalidades lúdica e multicolor que dominam grande parte do disco.

Já a faixa 5, “Teclas de mon frère” (uma versão a partir do tema afectivo do projecto “Pedra Preta”, liderado pelo seu amigo e cúmplice de estrada, o singular músico brasileiro Munir Hossn), denota igualmente uma busca pelo registo minimal, sem grandes preocupações virtuosísticas, explorando silêncios/suspensões e sequências curtas de notas/acordes numa atmosfera jazzística despojada, interrogativa e “obsessiva”.

(Uma nota aqui para uma faixa escondida, uma espécie de “espasmo mental” ocorrido em estúdio, que fecha o tema “Cielito lindo” depois de uma inesperada pausa/suspensão de 13 segundos, e que parece abrir pontes para novas criações futuras.)

É um ambiente de festa, contagiante e pleno de vivacidade, com diversos aromas, sentidos e matizes em diálogo e interpenetração, que percorre muitas das faixas deste álbum, caso dos primeiros quatro temas ou de “Quilha” e “Mestiço”, sempre com uma secção rítmica (bateria e baixo) muito participativa e ornamentada em termos melódicos, ao nível dos arranjos e da relação harmoniosa com o acordeão – a já apurada cumplicidade de Frade com Hossn e Michael Olivera (virtuosos músicos que acompanham o acordeonista algarvio neste disco) é aqui bem evidente. Recorde-se ainda que João Frade é um confesso apaixonado, desde os tempos de infância, pelo universo da percussão.

O prazer da partilha colectiva, da primazia da formação em banda ao invés do acordeão solitário, bem como da genuína vontade (que sabemos) de João Frade de “dar espaço ao outro”, deixando a personalidade e dinâmica dos demais músicos (co)existirem para que cada um possa contribuir para a construção conjunta da história, são traços que ressaltam igualmente deste trabalho discográfico. Daí também o grande potencial performativo que se entrevê/adivinha na sua transposição para um contexto de palco, ao vivo – aliás, não fossem de luxo também os convidados especiais que Frade desafiou para esta nova criação: Leo Genovese (piano), Ricardo Toscano (saxofone), Adriano DD (percussão) e Miron Rafajlovic (trompete).

Essa intencionalidade de cruzar o acordeão com outros instrumentos e de maximizar essa profícua síntese musical é bem evidente em vários momentos deste álbum, como sejam, por exemplo, as faixas “Pandora” (com os desenhos e slappings do baixo eléctrico, o solo de trompete, as linhas de guitarra eléctrica ou o recurso à electrónica) e “Quilha”, expressão popular que traduz a espinha dorsal de uma embarcação. Diria mesmo que estes dois temas, pela sua riqueza melódica e bom gosto ao nível da conjugação e equilíbrio entre as várias dimensões/estratos musicais, constituem porventura duas das paragens mais emblemáticas e cativantes da viagem para a qual Frade nos convida.

João Frade e a sua “máquina de vento” convocam-nos neste disco para uma sonoridade aberta a novos horizontes, em que o criativo intérprete nascido a sul, em Albufeira, revela mais uma vez a sua paixão pela dimensão harmónica e pela música improvisada sem esquecer, contudo, os labirintos e fascínios das vozes da terra e do espírito dos lugares. Talento técnico, humildade, ousadia e foco artístico fazem dele já uma figura de referência no panorama da música instrumental produzida em Portugal na vertente do acordeão.»

Paulo Pires

// Duração: 120 minutos (aprox.)
Org.: Câmara Municipal de Loulé / Cineteatro Louletano

 

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  • Auditório do Solar da Música Nova (Loulé) [lotação limitada]
  • 21:00
  • Entrada gratuita
  • M/12

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