Cine-Teatro Louletano

Recital Enoch Arden, de Strauss, por Nuno Vieira de Almeida e Albano Jerónimo

31 de janeiro de 2021

Basicamente a definição de melodrama refere uma obra, ou parte dela, em que o texto é declamado sobre música. Apesar de algumas óperas terem momentos de melodrama – Fidelio ou A mulher sem sombra, por exemplo – diversos compositores dedicaram a esta prática musical obras inteiras.
 
Strauss compõe em 1896/97 sobre texto de Tennyson o melodrama Enoch Arden, para voz e piano. A obra situa-se entre os poemas sinfónicos Assim falava Zarathustra de 1896, e D. Quixote de 1897 e, como estes, pode considerar-se já uma obra de maturidade para um compositor com 33 anos que tinha ainda uma longa e criativa carreira à sua frente.
 
Foi com Enoch Arden que Strauss obteve na altura um sucesso retumbante, ainda maior do que o conseguido com os poemas sinfónicos, tendo efectuado inúmeras tournées com o seu dedicatário, Ernst von Possart, actor e director teatral.

Enoch Arden é um dos mais longos melodramas existentes e um dos mais bem construídos.
 
A temática remete-nos a Ulisses e Robinson Crusoe, mas a melancolia do marinheiro que perde e reencontra a família de novo formada, julgando-o morto, é totalmente romântica e encontra a sua confirmação genial na música de Strauss.
 
O piano dá a chave, por assim dizer, a muitíssima coisa no texto, tornando-se um parceiro indispensável à leitura. Cada personagem tem musicalmente o seu “motivo conductor” e o entrosamento dos vários temas, tratado com uma modernidade romântica (uso o choque de conceitos propositadamente) típica do compositor, acaba por apontar o caminho a muitas obras cénicas tardias.
 
Trata-se realmente de uma obra prima.
 
Uma problemática interessante que distingue de forma óbvia a diferença entre a palavra dita e a palavra cantada é que, no primeiro caso, o compositor trata apenas de clarificar o significado do texto segundo a sua leitura pessoal, ouvida na parte instrumental, sem compor tendo em conta directa a sonoridade da língua, como acontece invariavelmente nos textos cantados. Isso dá a actor e pianista uma responsabilidade acrescida uma vez que a música que ilustra o texto fornece a indicação segura do tipo de leitura pretendida, permitindo simultaneamente que este seja proferido na língua do país em que é interpretado sem “quase” causar dano à leitura feita pelo compositor.
 
Não admira por isso que Enoch Arden tenha sido abordado por um grande número de declamadores (entre actores e cantores) tão famosos quanto Claude Rains, Bruno Ganz ou Jon Vickers e Dietrich Fischer-Dieskau, que o interpretaram no original inglês e na tradução alemã, e pianistas como Glenn Gould, Emanuel Ax ou Wolfram Rieger.
 
A obra nunca foi dada em Portugal e cabe-nos a nós, a mim e ao Albano Jerónimo, a honra e a alegria de finalmente a estrear na tradução portuguesa de Vítor Moura. Como se costuma dizer: “Já não era sem tempo!”
 
(texto de Nuno Vieira de Almeida)
 
Richard Strauss – Enoch Arden – poema de Tennyson (tradução de Vítor Moura)
 
Albano Jerónimo – narração
Nuno Vieira de Almeida – piano, direcção
 
Duração: 60/70 minutos
  • Cineteatro Louletano
  • 17h00
  • €8,00 / €6,00 (para maiores de 65 e menores de 30 anos). Cartão de Amigo aplicável.
  • M/12