Cine-Teatro Louletano

A Noite de Molly Bloom - Companhia de Teatro do Algarve (ACTA)

15 de maio de 2021

No último capítulo do Ulisses, de Joyce, o senhor Leopold Bloom, depois de deambular vinte horas por lugares de Dublin regressa a casa a fim de se deitar com a sua esposa. Pois, deita-se e logo adormece.É durante o sono do senhor Bloom que a esposa, Molly, desvenda facetas da personalidade dele e da sua própria. É um solilóquio torrencial, fragmentado, com frases ligadas ininterruptamente por associações de pensamentos, sonhos e fantasias eróticas que assolam esta mulher durante a insónia.

 

Debate-se a questão da evidência, ou não, de se tratar de um discurso com sentido feminista. A nós, interessa-nos sobretudo abordar esta metáfora de Penélope no plano existencial.

 

Damos a palavra a Luís Vicente, encenador:

 

«Agradeço ao Miguel Seabra ter-nos facultado a tradução que o José Bento fez de A noite de Molly Bloom que o Miguel encenou em 1996 para o Teatro Meridional e que teve a interpretação da Natália Luiza. Conhecendo eu a exigência que estes meus colegas – o Miguel e a Natália - põem no seu trabalho, e o rigor do José Bento, não tenho qualquer dúvida acerca da elevação dessa obra cénica (a que não tive a oportunidade de assistir) do texto de Joyce com dramaturgia do José Sanchis Sinisterra.

Vinte e cinco anos depois estamos nós a levá-lo à cena!

 

O texto de Joyce, como se sabe, é unanimemente considerado um monumento da literatura, e o capítulo XVIII (A noite de Molly Bloom) uma tentação para qualquer fazedor/a de Teatro. Se este texto fazia sentido em 1996, vinte e cinco anos depois parece-me que ainda faz mais sentido. É que nesse tempo aconteciam amplas e profundas discussões acerca de matérias que o texto aborda; hoje em dia, apesar de persistirem, essas matérias foram aligeiradas no espaço público julgando-se que perderam substância, e muito por via da vulgaridade que invadiu a nossa existência, nomeadamente no que diz respeito à experiência feminina: um poço de vaidades emergiu e matéria comezinha manifesta-se – sobretudo através das redes sociais com tanta fake news à mistura.

 

Confesso que por vezes me espanta como é que estas criaturas não sentem vergonha delas próprias ao exporem a sua falaciosa intimidade. Enfim, é o mundo que temos!

 

Este texto constitui uma denúncia no feminino (não digo feminista).

 

Na sua aparente vulgaridade Molly Bloom evidencia problemáticas que o oposto de género não alcança. Sim, ela pode parecer elementar, mas tendo como referência o universo masculino (o texto é de 1920) o seu discurso é de libertação. Molly Bloom expõe-se mas num sentido que está muito para além do aspecto imediato; pode mesmo dizer-se que a sua exposição dramática constitui um manifesto libertador, uma alusão – direi mesmo uma denúncia!- da grande literatura a um contexto existencial de condições opostas: o homem dorme; a mulher afirma-se.

 

Orgulho-me por levar esta obra à cena. E honra seja feita a Joyce que a escreveu e ao Sinisterra que a dramatizou; e honra seja igualmente feita às actrizes que têm aceitado o desafio de interpretar a personagem de Molly Bloom - pode parecer divertido (e, de facto, é!); mas, podem crer: não é fácil. Nós, fazedores/as de Teatro, é que nos damos ao gosto e ao desgosto de o fazer!»

  • Cineteatro Louletano
  • 21h00
  • €8,00 / €6,00 (para maiores de 65 e menores de 30 anos). Cartão de Amigo aplicável.
  • M/16