Cine-Teatro Louletano

Erêndira! Sim Avó… Teatro A Barraca

21 de setembro de 2018

“Texto a partir d´A Incrível e triste história de cândida Erêndira e sua Avó Desalmada, de Gabriel García Márquez

 

‘Estava Erêndira a dar banho à Avó quando começou o vento da sua desgraça.’ É com estas palavras que o Prémio Nobel da Literatura Gabriel García Marquez abre a novela curta que está na base deste espetáculo. Usando como pano de fundo a triste realidade da exploração sexual de menores na profunda Colômbia mágica, Gabo dá-nos a conhecer a relação de exploração entre uma Avó desalmada e uma neta cuja candidez e cega obediência suporta extremos de violência sexual impensáveis. ‘Se as coisas continuarem assim pagas-me a dívida dentro de oito anos, sete meses e onze dias.’, contabiliza a Avó. Se tivermos em conta que a média diária são setenta homens a quem Erêndira presta por dia os seus serviços, teremos ideia do nível da exploração que este corpo de 14 anos acabados de fazer terá de suportar, da crueldade da Avó e do desnorte a que chega uma sociedade indígena violentada por missionários evangelizadores e regida por militares sem escrúpulos.

 

Não podendo olhar para esta narrativa senão como uma metáfora, e tendo em conta que García Marquez é um escritor que aliou como poucos uma escrita mágica às preocupações sociais e políticas, não é estranho que ela nos evoque imediatamente a relação de exploração existente entre países ricos e países pobres. A dívida de Erêndira – nascida de um descuido numa desgraçada noite de vento em que, caída de cansaço, adormeceu antes de apagar uma vela – vai aumentando à medida que a paga.

 

A Avó rejuvenesce a cada pagamento que recebe da mão dos tais setenta homens que por dia se servem de Erêndira. Rumo ao mar, embalada pelos amores sonhados com contrabandistas sedutores a caminho da travessia para a desejada ilha de Aruba, a baleia irá morrer na praia às mãos de Ulisses, amantíssimo anjo libertador de uma Erêndira que nunca mais parará de correr.

 

Para a estrutura do trabalho de adaptação inspirei-me nas Station Plays, prodigiosa herança novecentista do teatro medieval que, ao libertar-nos da prisão da narrativa realista, permite que de estação em estação o espetáculo estacione para o teatro ter lugar. Esta opção nasce do reconhecimento de que, na escrita de García Marquez, existe uma Erêndira que é também ela, na sua itinerância, uma mártir levada, de estação em estação, a cumprir a sua Paixão, o seu Calvário.

 

E então o espetáculo. E então escolher, abdicar, experimentar. Encontrar um espaço cénico que permita contar uma história que atravessa a Colômbia imaginada de García Marquez, ir ao encontro de um ambiente que permita ao realismo mágico respirar. Aplicar recursos múltiplos e usá-los sempre de modo a perseguir a artesanalidade inaugural de todos os desfloramentos. A artesanalidade dos pobres. Neste teatro não está o texto no centro, não está a palavra na boca do ator. O texto de García Marquez é um texto de imagens, um texto para ser imaginado, não para ser dito mas para ser lido. Para ser visto com a imaginação.”

 

Rita Lello

 

Texto: a partir d´A Incrível e triste história de cândida Erêndira e sua Avó Desalmada, de Gabriel García Marquez / Direção e adaptação: Rita Lello / Assistente de encenação: Rita Soares / Espaço cénico: Rita Lello / Carpintaria: Mário Dias / Figurinos: Maria do Céu Guerra / Adereços: Marta Fernandes da Silva / Assistente de guarda-roupa: Sérgio Moras / Costureira: Zélia Santos / Seleção musical: Rita Lello / Música original e arranjos: João Maria Pinto / Desenho de luz, vídeo e edição: Paulo Vargues / Sonorização: Ricardo Santos / Assistência à montagem: Fernando Belo / Animações: Paulo Vargues / Relações públicas e produção: Inês Costa, Paula Coelho, Sónia Barradas / Fotografia: Ricardo Rodrigues / Elenco: Maria do Céu Guerra, João Maria Pinto, Adérito Lopes, Rita Soares, Ruben Garcia, Samuel Moura, Sérgio Moras, Alexandre Castro, entre outros

 

Duração: 120 minutos (com intervalo)

Org.: Câmara Municipal de Loulé / Cine-Teatro Louletano

 

https://www.facebook.com/cineteatrolouletano

  • Sala de espetáculos
  • 21:30
  • 12 € / 10 € para maiores de 65 e menores de 30 anos (Cartão de Amigo aplicável)
  • M/16