Cine-Teatro Louletano

LAST, de São Castro e António M Cabrita (por Companhia Paulo Ribeiro)

30 de setembro de 2021

"Pode dizer-se que Last perdurou (em inglês, to last) nas nossas cabeças como a peça que queríamos criar, mas que não encontrava o tempo-espaço certo para acontecer. Em 2014, com Play False, elegemos Shakespeare como o anfitrião para nos orientar ao longo de uma peça em que o texto e a palavra foram a matéria para os nossos gestos e movimentos.
No universo da imagem, em 2016, Henri Cartier-Bresson e o seu trabalho fotográfico, levou-nos à criação de Rule of Thirds, onde o corpo em pausa se tornou o enquadramento perfeito para um trabalho sobre movimento. A música seria a próxima protagonista.

 

Na procura pela música/obra certa - ou talvez, inconscientemente, a mais incerta - para o ato coreográfico, aceitámos a sugestão de um amigo, Angus Balbernie, que nomeou The Late String Quartets de Beethoven, como o derradeiro desafio. Beethoven compôs estas obras nos seus últimos três anos de vida, terminando o Opus 135, seis meses antes da sua morte, no outono de 1826. Entre uma relativa convenção e a vontade de sair fora dos padrões habituais, The Late String Quartets expõe os seus últimos e mais privados pensamentos em larga escala, sendo considerada uma das mais belas e complexas peças musicais de todos os tempos. A particularidade da obra ter sido totalmente composta e permanecido na cabeça de Beethoven, sem este nunca ter conseguido ouvir uma única nota durante o processo de composição, inspirou-nos. E, desde logo, tornou-se evidente que esta obra teria de ser tocada ao vivo e que o público teria de ter a experiência de a ouvir e de a visualizar, como o próprio compositor nunca teve oportunidade de fazer. Queríamos trazer a dança e o corpo em movimento para o enquadramento da obra musical, como a matéria que dá forma e volume à música de Beethoven. Foi, neste contexto, que surgiu o convite ao Quarteto de Cordas de Matosinhos, também por uma sugestão, desta vez, de Luísa Taveira, e que mereceu, de imediato, a nossa total confiança e agradecimento. Mas tudo isto ficou em intervalo de silêncio.

 

Em 2019, muito próximo da celebração dos 250 anos do nascimento de Ludwig van Beethoven (2020), Last acontece exatamente como desejávamos, ou ainda mais do que imaginávamos: a abrir a rentrée do Teatro Viriato, no ano em que se assinalaram os 20 anos de reabertura deste Teatro ao público, como diretores artísticos da Companhia Paulo Ribeiro que é igualmente a companhia residente há 20 anos, muito bem acompanhados pela mestria do Quarteto de Cordas de Matosinhos. Quatro instrumentos - cada um com a sua própria particularidade e personalidade - acompanham cinco corpos, cinco territórios discursivos, também diferentes entre si, mas que juntos criam cumplicidades. E, em modo uníssono e dissonante, desafiam-se a encontrar o equilíbrio entre o espaço e a ideia individual, um exercício que se reflete, no final, como uma atividade conjunta intensa.

 

Na nossa pesquisa sobre como Beethoven pensava e criava as suas obras, deparámo-nos com uma afirmação interessante em que o próprio compositor afirmava existir música pública e música privada. Especialmente, as suas peças escritas para quartetos de cordas são frequentemente descritas como internas, contemplativas ou visionárias. A presença dessa dicotomia entre espaço público e espaço privado na relação da música com os ouvintes da mesma foi algo que nos inspirou na construção dramatúrgica e cénica da peça. Em palco, construímos um espaço privado entre os músicos e os bailarinos que, lentamente, se vai abrindo e alargando ao espaço público, de onde observam todos os outros presentes. O público observador, testemunha da relação entre a música e a dança: o trio perfeito!

 

'Das ist Musik für eine spätere Zeit' (Isto é música para o futuro). Era assim que o próprio Beethoven respondia perante a incompreensão e incapacidade de aceitação por parte do público, relativamente às suas últimas obras. E essa reação do público não seria despropositada, quando num mesmo andamento de um dos quartetos, o público é confrontado com ritmos, estilos e emoções opostas. Mas ele teria razão em chamar-lhe 'música para o futuro'... Mais do que a compreensão musical que a contemporaneidade permite das suas composições, hoje, a sua música reflete a inconstância, o caos, a beleza e a incerteza de um presente mundo submerso em constante dinâmica incontrolável, o conflito do indivíduo consigo mesmo, do indivíduo com o mundo e vice versa. Beethoven também acreditava que: 'Die Kunst verlangt von uns, niemals still zu stehen.' (A arte exige que não fiquemos parados). Por esta razão, Last é, acima de tudo, o desafio impossível de manter os sentidos inertes, perante uma obra que o próprio compositor nunca chegou a ouvir."

São Castro e António M Cabrita

 

 

 

LAST
de São Castro e António M Cabrita
Música ao vivo Quarteto de Cordas de Matosinhos
Produção Companhia Paulo Ribeiro

 

FICHA ARTÍSTICA

DIREÇÃO E COREOGRAFIA
São Castro e António M Cabrita

 

INTERPRETAÇÃO
Ana Moreno, Ester Gonçalves, Guilherme Leal, Miguel Santos e Rosana Ribeiro

 

BAILARINOS ESTAGIÁRIOS
Laura Abel e Marco Esteves

 

MÚSICA
The Late String Quartets de Ludwig van Beethoven

 

INTERPRETAÇÃO MUSICAL AO VIVO
Quarteto de Cordas de Matosinhos: Vitor Vieira e Juan Maggiorani (violinos), Jorge Alves (viola), Marco Pereira (violoncelo)

 

ESPAÇO CÉNICO, DESENHO DE LUZ E FIGURINOS
São Castro e António M Cabrita

 

DIREÇÃO TÉCNICA E CONSULTORIA AO DESENHO DE LUZ
Cristóvão Cunha

 

PRODUÇÃO
Companhia Paulo Ribeiro

 

COPRODUÇÃO
Rivoli-Teatro Municipal do Porto, São Luiz Teatro Municipal, Lisboa e Teatro Viriato, Viseu

 

A COMPANHIA PAULO RIBEIRO é uma estrutura financiada pela República Portuguesa - Cultura/Direção-Geral das Artes.

 

O PROJETO LAST tem o apoio do Município de Viseu, no âmbito do programa Viseu Cultura.

 

 

 

BILHETEIRA

» Cartão de Amigo aplicável

» Desconto de 30% para Acompanhante de Pessoa com Necessidades Especiais e para Maiores de 65 Anos e Menores de 25 Anos

» Desconto de 50% para Bilhete de Grupo (10 pessoas)

» Entrada gratuita para todas as pessoas com necessidades especiais, para crianças até aos 12 anos de idade e para portadores do cartão sénior da Câmara Municipal de Loulé

  • Cineteatro Louletano
  • 21h00
  • 10 €
  • M/6